"Há sempre uma mulher à sua espera, com os olhos cheios de carinho e as mãos cheias de perdão."
Vinícius de Morais.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Bússola do Tempo


Que canto cantam os pássaros do norte?
Como podemos viver tanto tempo sem pensar
Nas vidas que vivem em solidão no pesar do tempo
Que vivem sobrevivendo? Como podemos sobreviver sem viver
Na claridade escura do breu dos ventos?

Que canto cantam os pássaros do leste?
Como pode alguém viver em liberdade
Sem admirar o sol que se põe em dezembro
Na curvatura da sabedoria celeste?

Que canto cantam os pássaros do oeste?
Se em guarda se fala de alguém que vem
Da cidade de anjos que coexiste ao tempo?
Como, senhores, podem os homens viver sem
A sabedoria do canto cor de sexo dos pássaros?

Que canto cantam afinal os pássaros do sul?
Em sintonia nítida com os caprichos da galáxia
Em seu clamor com o cheiro da cor azul?
Viva meus caros pássaros!
Vivam por seus homens que pouco olham as estrelas
Voem para que possa passar o dia dos pretensos sábios
Que pouco pensam em vossa liberdade,
Que vivem sobrevivendo
E se distraem com o tráfego da cidade
Sem pensar no ar, no céu, nas aves.

A Ilusão Chamada Tristeza



Para que chorar menina dos olhos
Se a vida passa carinhosa pelos amantes?
Para que sofrer se o amor está solto por aí
Por aqui, por entre os condomínios fechados
Do Rio de Janeiro, por entre as ruas de Icaraí?
Porque achar que errado é viver se a vida não
Nos dá a liberdade de fazer outra coisa?

É menina, não se engane. Não pense que a alegria
Se espalha feito bruma pelos cabelos da solidão
A felicidade habita onde menos se espera,
No coração dos casais que brigam e não sabem porquê.

A felicidade, já dizia o Buda, é um estado mental,
Um estado de espírito que independe da pessoa alheia
Estaria certo o Buda? A felicidade encontrar-se-á no peito só?
Na mente em si? Como pode a felicidade fora da veia
Da pessoa outra amada? Só a companhia desfaz o nó
Do peito dos amargurados. Não se engane menina,
A tristeza é uma ilusão, já dizia o Buda.
Tristeza é um nome feio que os arautos da solidão
Inventaram para mentira.
Não se engane menina dos olhos dourados,
Não pense que a vida pode ser feita de infelicidade
Porque a infelicidade não passa de um pouco menos
Que nada. O único cimento para se construir o castelo da vida
É da marca amor. E o amor se ama a alguém
Ainda que seja um alguém que se ame sem saber
Mas o que é a sabedoria senão o conhecimento da vida?

Não se iluda menina. Não deixe a tristeza te enganar
Porque tristeza é sinônimo de ilusão.



sábado, 20 de novembro de 2010

Bilateral



Duas estrelas azuis me olham da imensidão da tarde
Que arde. Como duas esferas de luz a contemplar o dia
Quantas toneladas de amor teu corpo suportará em verdade?
Quantas estrelas haverão de brilhar para mim em alegria?

Em teus seios que crescem para o sol repouso meu corpo
Como deposito meu sangue em teu ventre alinhado à constelação
de touro, em nítida sintonia com tuas estrelas oculares azuis
e imorais, no silêncio ensurdecedor que sucede o espasmo. 

Em teu colo hei de morrer a petite mort da plenitude
Em teu coração hei de beber o carinho que te dedico
Agora e pelo momento que estamos em virtude

Sem que peças ou que implores, te escravizo como sorte
De um claro amor profundo e azul. No momento em que
vivemos uma mesma vida e morremos uma mesma morte

domingo, 7 de novembro de 2010

Soneto do Amor Maior



O amor maior nosso foi como talvez ainda o seja
Imortal, impuro, impúbere, encarcerado no clamor do tempo
Banal, carnal, fatal, tal qual talvez ainda o veja
Infinito limitado às distorções do espaço, ao sabor do vento

Se em teu ventre repousei meu corpo ardente
Como a carne que queima no ambiente de lavanda
Teus seios a mim foram servos em uma graça clemente
Quando as noites só permitiam nascer o sol na varanda

Foste em tempo a amada imoral que saciava teu desejo
Nas carícias plenas das noites eternas
De um trôpego amor maior do mundo

Sem que soubesses que apesar do fim sempre iminente
Esteve o maior desejo no amor maior, infindo, soturno, cru
Plácido e voraz, na imensidão do que foi e talvez ainda o seja.

Criação


No início era o êxtase
E do êxtase fez-se o espasmo
E do espasmo fez-se o canto
E tanto,
Que do espasmo fez-se o dia.
E a poesia.

Intervalo poético



Já substituí teu corpo,
Teu cheiro, teu doce cheiro de rancor,
Já substituí tua face colada na minha
Tua vida, que era minha.
A minha que foi tua.
Minha máquina de amor,
Cansou de ti, de teu pudor, de teu rancor.
Substituí tua pele por muitas outras peles
E teus seios duros por muitos outros seios
Entusmecidos de anseios
Que teus anos de alegria não permitiram ver
nas flores vivas que te dei
No coração vivo que te dei
Nas pulsações do meu peito que arde por elas,
Que ardia por ti
É, minha amada,
Minha ex amada ainda tão amada
A ti te substituí
Por paixões tão sôfregas
Quanto a respiração dos pássaros
Por amores tão intensos quanto o teu, o meu, o nosso.