"Há sempre uma mulher à sua espera, com os olhos cheios de carinho e as mãos cheias de perdão."
Vinícius de Morais.

domingo, 7 de novembro de 2010

Soneto do Amor Maior



O amor maior nosso foi como talvez ainda o seja
Imortal, impuro, impúbere, encarcerado no clamor do tempo
Banal, carnal, fatal, tal qual talvez ainda o veja
Infinito limitado às distorções do espaço, ao sabor do vento

Se em teu ventre repousei meu corpo ardente
Como a carne que queima no ambiente de lavanda
Teus seios a mim foram servos em uma graça clemente
Quando as noites só permitiam nascer o sol na varanda

Foste em tempo a amada imoral que saciava teu desejo
Nas carícias plenas das noites eternas
De um trôpego amor maior do mundo

Sem que soubesses que apesar do fim sempre iminente
Esteve o maior desejo no amor maior, infindo, soturno, cru
Plácido e voraz, na imensidão do que foi e talvez ainda o seja.

Criação


No início era o êxtase
E do êxtase fez-se o espasmo
E do espasmo fez-se o canto
E tanto,
Que do espasmo fez-se o dia.
E a poesia.

Intervalo poético



Já substituí teu corpo,
Teu cheiro, teu doce cheiro de rancor,
Já substituí tua face colada na minha
Tua vida, que era minha.
A minha que foi tua.
Minha máquina de amor,
Cansou de ti, de teu pudor, de teu rancor.
Substituí tua pele por muitas outras peles
E teus seios duros por muitos outros seios
Entusmecidos de anseios
Que teus anos de alegria não permitiram ver
nas flores vivas que te dei
No coração vivo que te dei
Nas pulsações do meu peito que arde por elas,
Que ardia por ti
É, minha amada,
Minha ex amada ainda tão amada
A ti te substituí
Por paixões tão sôfregas
Quanto a respiração dos pássaros
Por amores tão intensos quanto o teu, o meu, o nosso.